As consequências do fracasso patético da Superliga da Europa

Em Leeds, jovens propõem o epitáfio do Liverpool, um dos doze da Superliga

Em Leeds, jovens propõem o epitáfio do Liverpool, um dos doze da Superliga
calciomercato.com

Não, não, por favor, que todos os defensores da suposta modernidade aceitem que se equivocaram. Não foram o conservantismo e o tradicionalismo que carregaram a Superliga dos doze magnatas a um falecimento precoce, menos de 48h depois do seu parto por fórceps. Muito ao contrário, foram o apego e a paixão dos torcedores pelos seus times do coração, dos torcedores que preferem ver um jogo do Real Madrid contra o Barcelona por “La Liga”, um jogo do Liverpool contra o Arsenal pela “Premier”, ao invés dos “Merengues” versus “Blues” ou dos “Reds” contra o “Blaugrana” numa competição de patrocínio bilionário mas sem as tensões de uma rivalidade de antologia ou do risco de um rebaixamento.

Pichação num tapume metálico de Barcelona

Pichação num tapume metálico de Barcelona
Reprodução

Impressionou a forma como a reação eclodiu e depressa fermentou, sem qualquer preparação antecipada, apenas graças a pichações e ao boca-a-boca das chamadas “redes sociais” e da Internet. Uma reação voraz, adequadamente proporcional à petulância de cartolas que se consideram o “creme-dos-cremes” do Futebol, dirigentes teoricamente profissionais porém, na realidade, mais amadores do que os jovens fãs que acuaram o seu elitismo suicida. Pois é, erra rotundamente quem aposta que o Ludopédio só vive de clássicos mastodônticos, ou quem tolamente acredita que o Esporte Bretão corre o risco de acabar sem platéia caso não concentre os seus holofotes, ahn, tá bom!, nos “melhores”.

Florentino Perez e Andrea Agnelli

Florentino Perez e Andrea Agnelli
Divulgação Super League

Perderam a batalha, perderam a guerra e, principalmente, perderam a face. Foram essencialmente os jovens fãs, que estariam “inexoravelmente” a se afastar dos estádios, que engendraram a fragorosa derrota dos magnatas liderados por Florentino “Real Madrid” Peres e por Andrea “Fiat/Juventus” Agnelli. Tratados como reles consumidores comuns pelos doze “gênios” da Superliga, os jovens fãs lhes deram uma lição inolvidável, e gratuita: se o Futebol se transformou num negócio digno de multi-investimentos, é exatamente porque não perdeu o seu caráter mágico e original – a sua simplicidade. Precisamente a simplicidade essencial que o torna único e exclusivo no largo espectro das contendas entre os seres humanos: em nenhum outro jogo, como o do Futebol, o mais fraco tem tanta chance de suplantar o mais forte. Isso, em nenhum outro jogo existem as “zebras”.

Mais jovens num protesto, "o dinheiro não compra os fãs"

Mais jovens num protesto, “o dinheiro não compra os fãs”
@jornaldamadeira

Torcedores, digamos, de times pequenos, ou dos menos glorificados, são torcedores eternos desses times, e não interessa de que torneios participam. Comparar o Futebol com o Basquete dos EUA, por exemplo? Ora, não passa de uma estultice descomunal. Lá, ninguém se incomoda se os Boston Celtics se mudem para Los Angeles. Nem os “rooters” dos Celtics sairão de Boston  para morar em LA. Mas, caso o Barcelona decida se transferir a Valencia, ocorrerá uma revolução na Catalunha. A moeda do velho Ludopédio é o arrebatamento. No Futebol, uma bitcoin não vale nada. Houve prejuízos por causa da pandemia? Claro, ninguém é imbecil de negar. Faz um biênio que a UEFA investiga novas hipóteses de redistribuição de rendimentos. Na segunda-feira subseqüente à divulgação do projeto capengóide da Superliga, apresentaria várias opções em uma sua convenção.

Na camisa de jogadores do Leeds, "se quer a Champions, faça por merecer"

Na camisa de jogadores do Leeds, “se quer a Champions, faça por merecer”
@LeedsUtd

Consequência da precipitação: na pressão, uma retirada grotesca, e vergonhosa, de cartolas travestidos de fujões. Em nada se abalaram os proprietários, todos eles ávidos especuladores, dos seis clubes ingleses que integravam os doze. Ou alguém fantasia que Joe Lewis, o majoritário do Tottenham, tenha deixado de velejar nas águas luminosas das Bahamas, onde mora? Florentino Peres é um famoso cara-de-pau. Steven Zheng, do Suning Holdings Group, o proprietário da Internazionale, se escafedeu e largou toda a responsabilidade no lombo de Beppe Marotta, o diretor remunerado da agremiação, que se obrigou a renunciar a seu mandato no Conselho da FIGC, a Federação Italiana. Paolo Scaroni, preposto da Elliott Corporation, a dona do Milan, se demitiu do Conselho da “Lega Calcio”. Bravo, o ex-craque Paolo Maldini, numa coletiva, disse que não sabia de nada sobre a Superliga e atirou ao vácuo o executivo Ivan Gazidis, “capo” da tramóia no “Diavolo”.

Beppe Marotta, da Inter, a caminho do limbo

Beppe Marotta, da Inter, a caminho do limbo
interfc.com

Pior dentre as piores ficou a situação de Andrea Agnelli, o presidente da Juventus que, desde 2012, também era o presidente da ECA, a European Clubs Association. Tristeza. Acusado de “traidor” e de “Judas”, ele precisou abandonar o encargo, assim como o de componente do Executivo da UEFA. Aliás, Aleksander Ceferin, o presidente da UEFA, padrinho de uma das filhas de Andrea, rompeu relações pessoais com o agora ex-compadre. Idem, brigaram com Andrea os seus colegas de “Lega Calcio”. Além de óbvio que a sua permanência no comando da “Senhora”, isolada na Europa, e na Itália, depois do fiasco da Superliga, apenas prejudicará a agremiação, faz exatos cem anos sob os Agnelli.

Elkann, com Gigi Buffon e com o futuro da Juve nas mãos

Elkann, com Gigi Buffon e com o futuro da Juve nas mãos
juventus.com

O futuro de Andrea agora repousa nas mãos de um primo e, ironia, rival familiar, John Elkann, presidente da Exor, a instituição que manda nos negócios da “Famiglia” e detêm 63.8% das ações da Juve. Já se escutam os nomes de três prováveis substitutos: de Alessandro Nasi, outro primo de Andrea e o vice de Elkann na Exor; de Evelina Christillin, ligada por parentesco aos Agnelli e integrante do Executivo da FIFA; e até mesmo de Marcello Lippi, o treinador da Juve entre 1994 e1999, entre 200 e 2004, e que levantou, pela “Squadra Azzurra”, a Copa de 2006. Não significará uma novidade na agremiação. Já houve, no passado, um momento de crise política na “Famiglia” em que os Agnelli recorreram a um símbolo. O ex-craque Giampiero Boniperti foi presidente de 1971 a 1990. Somou 18 títulos, dentro os quais nove da Bota, uma taça na “Champions” e uma na antiga Copa Interclubes.


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