Palestinos lutam para sobreviver em UTI na Faixa de Gaza

Deitado de lado na cama, o rosto escondido por uma máscara de oxigênio que mal revela os olhos úmidos, Hussein al Hajj insiste: quer conversar. Mas dizer o quê? Que “a vacina é necessária”, pondera, entre a vida e a morte, em um serviço de terapia intensiva em Gaza

Em torno de Hussein, em meio às telas piscantes, o incessante “bip-bip” de máquinas que medem sua saturação de oxigênio, frequência cardíaca e pressão arterial. O homem de 71 anos está em uma unidade especial criada há dois meses para lidar com a covid-19 na Faixa de Gaza

Hoje, enquanto Israel reabre bares e restaurantes e registra pouca contaminação graças a uma campanha massiva de vacinação, a Faixa de Gaza enfrenta uma tempestade sanitária, sem meios ou vacinas. 

Os 100 mil casos vão ser ultrapassados esta semana. Mas são feitos apenas 3.200 exames por dia, com índice de positividade de 36%, um dos mais altos do mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde

“Oficialmente, são cerca de 1 mil casos por dia, mas provavelmente são 5 mil ou mais, já que as pessoas não vão ao hospital ou não nos ligam para dizer que têm sintomas. Essas pessoas vão aos mercados, entram em contato com outras, e o vírus se espalha” em grande velocidade, explica Abadelá.

“Além disso, os hospitais estão em péssimas condições”, diz ele. Gaza registrou na semana passada um recorde de 23 mortes em um único dia, de um total de 830

“É uma questão de vida ou morte, a qualquer momento as coisas podem piorar”, diz este professor aposentado, impotente. “Minha esposa e eu temos o coronavírus.

Ela está em quarentena em casa, mas eu tinha problemas pulmonares, por isso me levaram primeiro para um hospital, e depois para cá”, murmura

Diante dos contágios, o governo do Hamas impôs toque de recolher a partir das 19h para tentar evitar que as famílias se reúnam para o “iftar”, refeição que marca a quebra diária do jejum durante o mês do Ramadã. 

Tudo isso, enquanto espera as vacinas. “Recebemos 110 mil doses, mas precisamos de 2,6 milhões de doses suplementares”, assegura Abadelá

Na terapia intensiva, Hussein al Hajj teria preferido ser vacinado em vez de intubado. “A vacina é necessária, muito necessária, mas no momento o que tenho que fazer acima de tudo é sobreviver”.

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